Home REPORTAGEM Análise geográfica da distribuição dos serviços de saúde de Terapia Intensiva para atendimentos dos casos de COVID-19 no RS

Análise geográfica da distribuição dos serviços de saúde de Terapia Intensiva para atendimentos dos casos de COVID-19 no RS

Projeto SIGPampa faz análise cartográfica sobre a distribuição dos serviços de saúde de Terapia Intensiva para atendimentos dos casos de COVID-19 no Estado do Rio Grande do Sul.

Uma das temáticas que preocupa a sociedade em geral, bem como as autoridades de saúde, é como a disponibilidade do Sistema de Saúde pode atender aos casos da COVID-19. Neste sentido, a Secretaria Estadual da Saúde elaborou o Plano de Contingência Hospitalar – COVID-19 que contém as informações básicas sobre a temática e mostra de que forma o Estado está se organizando para o enfrentamento da crise. Esse documento é a linha-mestra de ação a ser seguida para o atendimento dos casos.



Buscando compreender como este quadro está geograficamente distribuído, o projeto SIGPampa elaborou uma análise cartográfica dos dados apresentados na versão 9.0, de 07/04/2020, do Plano de Contingência Hospitalar, buscando também os dados disponibilizados através da plataforma DATASUS. O estudo leva em consideração as Macrorregiões de Saúde do estado do Rio Grande do Sul. Cabe salientar que, para fins de organização e gestão da saúde, o território do Rio Grande do Sul está dividido em Macrorregiões, Coordenadorias Regionais de Saúde e Regiões de Saúde, como demonstrado pelo mapa da figura 1. Essa organização considera agrupamentos de municípios, tomando por base a dimensão dos seus territórios e, por conseguinte, as distâncias a serem percorridas.



A partir do Plano de Contingência Hospitalar (SES-RS, 2020), a Secretaria da Saúde traça um panorama de como poderá ocorrer a ampliação dos leitos de UTI para atender especificamente os casos de COVID-19 que necessitem desse tipo de suporte. O Plano prevê que 30% dos leitos de Terapia Intensiva mantidos pelo SUS, existentes, (301 leitos), serão reservados para o atendimento de pacientes da COVID-19. À medida em que os níveis estabelecidos pelo Plano forem avançando, há a previsão da ampliação dos leitos, ou seja, o incremento de leitos novos, para além daqueles disponíveis no sistema de saúde.



Os números absolutos sistematizados pelo projeto SIGPampa, para que tenham uma representatividade dentro daquilo que a Organização Mundial da Saúde estabelece, devem ser relativizados, considerando o quociente relativo a cada 10.000 habitantes. Neste sentido, antes da pandemia da COVID-19, a OMS recomendou que cada país tenha de 1 a 3 leitos de terapia intensiva para cada 10.000 habitantes. De acordo com o comunicado da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB, 2020),



segundo recomendações da OMS e do Ministério da Saúde, a relação ideal de leitos de UTI é de 1 a 3 leitos de UTI para cada 10 mil habitantes. Hoje, o SUS tem 1 leito para cada 10 mil habitantes, com pouca margem para aumento de demandas devido à alta taxa de ocupação. Na rede particular, a relação é de 4 leitos para cada 10 mil habitantes e a ocupação média é de 80%.



Tomando por base estes quocientes, foi analisada a distribuição dos leitos disponíveis para cada 10.000 habitantes, por Macrorregião de Saúde, nos seguintes casos:



A – número total de leitos de UTI mantidos pelo SUS, antes do início da pandemia;
B – 30% dos leitos de UTI mantidos pelo SUS antes da pandemia, reservados para pacientes de COVID-19, conforme Plano de Contingência Hospitalar (SES-RS, 2020);
C – número total de leitos de UTI não mantidos pelo SUS (particulares);
D – número total de leitos ampliados, considerando o nível 3 do Plano de Contingencia Hospitalar;
E – leitos de UTI mantidos pelo SUS, para cada 10.000 habitantes, antes da pandemia;
F – leitos de UTI mantidos pelo SUS, mais leitos UTI não mantidos pelo SUS, para cada 10.000 habitantes, antes da pandemia;
G – leitos de UTI para cada 10.000 habitantes, considerando os leitos dos grupos B e D;
H – leitos de UTI para cada 10.000 habitantes, considerando os leitos dos grupos B, C e D.



Um elemento que deve ter espaço nas análises que são feitas, não apenas por essa pesquisa, mas, em especial naquelas que se debruçam sobre os protocolos de atendimento da COVID-19 e da gestão do sistema de saúde, é o fato de que



o coronavírus pode ter infectado quatro vezes mais pessoas no Rio Grande do Sul do que indicam os números oficiais. Esta é a projeção da pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que conta com a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Pampa (Unipampa).
A primeira fase do estudo, realizada nos dias 11 e 12 de abril, mostra que para cada caso confirmado existem outros quatro não notificados. De acordo com a análise é de que 5.650 pessoas tenham sido infectadas pelo coronavírus no estado. Nesta quinta-feira, 16 de abril, o número de casos confirmados pela secretaria estadual da saúde não chega a 800. (UNIPAMPA, 2020)

Os dados da referida pesquisa, se associados ao fato de que no estado está ocorrendo a passagem do outono para o inverno, pode trazer à lume outra preocupação, que são as doenças respiratórias que se manifestam neste período. Como é amplamente conhecido, estas doenças podem ter efeitos mais significativos nos grupos de risco, que se assemelham aos da COVID-19. Com isso, pode haver um aumento de demanda por atendimento nos Estabelecimentos de Saúde, inclusive, em UTI. Cabe, no entanto, a estudos futuros essa análise.



Cabe ressaltar que, por se tratar de uma pesquisa em desenvolvimento pelo projeto SIGPampa, do Campus Itaqui da UNIPAMPA, os dados apresentados neste material são passíveis de adequações e atualizações, considerando que o próprio Plano de Contingência Hospitalar do RS (SES-RS, 2020) passa por atualizações em função do avanço dos casos de COVID-19.



A íntegra do estudo realizado, com os mapas e tabelas, está disponível em https://doi.org/10.31235/osf.io/6g8vr



APRENDA MAIS SOBRE O TEMA


A Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, mantém um site específico com vários estudos e dados que auxiliam na compreensão da temática. Visite o endereço https://coronavirus.rs.gov.br/inicial e navegue pelas informações disponibilizadas. Veja que estão disponíveis o plano de contingência, cartas científicas, comitê de dados com projeções de cenários, entre outros.



No site do projeto SIGPampa, disponibilizamos um conjunto de pesquisas que vem sendo realizadas e que dão o suporte científico necessário à compreensão da temática https://sites.unipampa.edu.br/sigpampa/covid-19/outras-pesquisas/



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMIB. Comunicado da AMIB sobre o avanço do COVID-19 e a necessidade de leitos em UTIs no futuro. 2020. Disponível em http://www.somiti.org.br/arquivos/site/comunicacao/noticias/2020/covid-19/comunicado-da- amib-sobre-o-avanco-do-covid-19-e-a-necessidade-de-leitos-em-utis-no-futuro.pdf
DATASUS. Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde – TABNET. 2020. Disponível em http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=02
IBGE. Base cartográfica vetorial contínua do Brasil em escala 1:250.000, versão 2017. Disponível em http://geoftp.ibge.gov.br/cartas_e_mapas/bases_cartograficas_continuas/bc250/versao2017/
IBGE. Malha territorial municipal compatível com a escala 1:250.000, versão 2018. Disponível em http://geoftp.ibge.gov.br/organizacao_do_territorio/malhas_territoriais/malhas_municipais/municipi o_2018/ SES-RS. Organização da saúde no território gaúcho – municípios, CRS, Regiões de Saúde, Macrorregiões e Coredes. Porto Alegre: Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, 2013. Disponível em https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/carga20190107/29150758- municipio-regiao-crs-macro-corede.pdf SES-RS. Plano de Contingência Hospitalar COVID-19 – Abril – versão 9.0, de 07/04/2020. Porto Alegre: Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, 2020. Disponível em https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/202004/22175138-contingenciamento-dre-daha-4.pdf UNIPAMPA. Estudo sobre coronavírus no RS tem primeiros resultados. 17 de abr. de 2020. Disponível em https://sites.unipampa.edu.br/coronavirus/2020/04/17/estudo-sobre- coronavirus-no-rs-tem-primeiros-resultados/#more-605



Sidnei Luís Bohn Gass é professor da Universidade Federal do Pampa, campus Itaqui, e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRGS. Coordenador do projeto SIGPampa - [email protected] - http://orcid.org/0000-0001-5197-7506.

Dieison Morozoli da Silva é discente do Curso de Engenharia Cartográfica e de Agrimensura da Universidade Federal do Pampa, campus Itaqui – [email protected] - https://orcid.org/0000-0001-5281-8427



Revisado por Cristina dos Santos Lovato.